Coisas frágeis

– Desculpa o atraso, o trânsito hoje estava infernal. Faz tempo que você chegou?

– Não muito, mas estou com bastante fome e já pedi para a gente. Espero que você esteja a fim de massa.

– Ah sim. Como foi seu dia?

– Comum e o seu?

– Sem atribulações.

– …

– Você se pergunta o porquê de virmos aqui?

– Sim, não aguento mais essa comida. Acho que já pedimos o cardápio inteiro.

– Não é isso que quero dizer, me refiro a termos esses encontros.

– Você não acredita em mim, mas você é boa companhia. Além do que posso beber em uma segunda-feira sem ser taxada de alcoólatra.

– Só você ainda consegue me fazer rir.

– E para você? Qual a razão de virmos aqui?

– É mais barato que terapia e acho que salmão grelhado combina mais comigo do que rivotril.

– Então é isso? Sou sua terapeuta não-remunerada?

– Não. Muito mais do que isso, você é minha constante.

– Como assim?

– Entre todas as trocas de emprego, endereço, estilo de vida… você estava lá. Sempre que precisei de um guia, de um colete salva-vidas, de uma viga de sustentação… você estava lá. Um constante em um mundo de variáveis. Que me permite permanecer constante.

– E você insiste em complicar as coisas. De novo, por que você vem aqui?

– Por que você é boa companhia.

– De novo.

– Por que preciso.

– Por que você acha que eu venho aqui, depois de todos esses anos, desencontros, mudanças de endereço e de estado civil… por que ainda ceder minhas segundas-feiras a você? Não é por que não funcionamos como casal que não gosto de te ver bem, de te fazer bem. Eu venho por que te amo. Então pergunto de novo: por que você vem aqui?

– Porque te amo.

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Doubts and convictions

I’ve never feared losing love. I’ve never truly missed a lost love.
I miss being heard.
I miss being admired.
To sit as a stronghold, protecting her against all threats, a safe house concealing her deepest feelings, healing any wound.
I’ve never wanted to be a lover. I cannot stand the absurdity of such a shallow concept. I was born to be a sorcerer, a magician… I need to mesmerize her, obliterating the image of such a fading world in front of mine, full of wonders. I want to turn her bewildered eyes into a proud look, bright and dreamy. Put an honest smile on her lips, and hope in her heart. Take her hand and walk her through life.
I fear to be a witness of her bliss, to take a walk on part… Above all, I fear to be forgotten. Simply crossing through her life, leaving her as I found. Anyone, anywhere, anytime. Anyhow. I don’t want to be herded among the others, simple shallow lovers. I want to stand up as a mighty shepherd, leading the way, or nothing at all. Because I cannot be her lover without being whole: teacher, healer, magician… And as I do, I will never love anyone until I find my teacher, healer, sorcerer, shepherd… So I wait.
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Terminal

Ele fitava fixamente o rosto da moça do outro lado da estação que mexia nervosamente no celular. Desviava o olhar, que não mais lhe velaria nada. Sabia, estavam atados.

Ela mexia nervosamente no celular, desviando do olhar que lhe confirmaria o que tentava negar. Sabia, estava atado.

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3×4

Dedos inquietos e finos flutuavam por aquelas quatro fotos: a mulher que encontrei, a mulher que amei, a mulher que perdi e a mulher que nunca conheci. Cada segundo gasto ou negado com cada me queimava a retina, torturava a memória.

Queria tê-las ali, qualquer delas, pronto para mostrar que mudei, que continuava o mesmo, que tinha jornado dos céus aos infernos a sua espera. Aonde fora todo aquele chama que ardia em minha própria noção de existência? Suprimido por ciúme, raiva, autocomiseração, esperança… perdido, bipartido, borrado, melindrado em medo, desespero;  encaixotado em esquecimento, descarnado. E ainda viva, ainda que descabida, despropositada querência.

Fora forte para chorar de medo em seu colo. E em seu colo sugou cego, sangrando-a em displicência. Tremeu e temeu por si só, sem vê-la vagar pra longe. E só se viu, por fim.  

A vaga não levou aqueles dedos destros, finos e firmes. Sabiam onde iam, não se deixariam arrastar. Sua segurança e força, extraida dele com tal leveza, a cada afago na nuca, cada naco de alma malamanhada que vomitava sobre ela, lhe guiavam lejano. Não havia sido isso que o atraiu à segunda vista? Já ia-lhe a léguas, longínquas do lugar em que lha guardaria se assim lhe desvelasse anuência. Recomposta, partiu. Viu-o ser arrastado pelas proprias vagas e sorriu, sabendo que não o salvaria dessa vez. Chorou. Perene querência.

                                                         

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Sobre pombos e centros

Impossível conceber um centro de cidade sem uma multidão de pombos. Enquanto caminho, sou acompanhado pelos seus passos vacilantes. Caminhavam ao meu lado sem demonstrar estranheza ou desconforto, sendo eu tão parte da paisagem urbana quanto eles.

Cresci assistindo filmes com a clássica cena em que crianças davam vazão a sua hiperatividade correndo atrás de pombos, que voavam para a segurança ao primeiro sinal de proximidade. Não vejo isso, entretanto, e mesmo duvido se cheguei a ver. Vejo um esquadrão andarilho, que grasna sua mendicância, indiferente a nossa presença, apenas reconhecendo a existência humana pela quantidade de comida em potencial abandonada em nossas ruas. Quando se tornaram tão confiantes? Serão nossas ruas mais seguras para pombos do que para crianças hiperativas?

Em seu paraíso sem teto de alimentos expostos e ameaças ausentes, os pombos mancam esquecidos de suas asas, mas conscientes de sua comodidade. E assim, continuam infestando as ruas dos centros, incautos contra possíveis ornitocidas caminhando ao seu lado.

Hoje encho o centro da cidade com meus passos confiantes. Ao meu redor, meus pares fazem o mesmo; igualmente sem rumo. Adestrados estamos: o êxito aguarda exposto nas ruas e as ameaças inexistem. É só pegar. Claudicantes e de olhos vazios, a multidão vagueia orgulhosamente em uma marcha cega rumo ao pote de ouro no fim do arco-íris.

Não sei se já houve pote de ouro, mas hoje até o arco-íris já se foi, tão indiferente a nós quanto os pombos. O que resta? A mim, não me apetece genocídios, logo apenas correr atrás dos pombos persistentemente, até obrigá-los a alçarem um vôo esquecido em suas esquecidas asas. Ensino-lhes assim uma lição que as gerações passadas omitiram. Ou aprendo uma.

Espero sob o Sol quente na rua 11 de agosto. Do outro lado do asfalto, o letreiro da padaria crava: D´Agosto. O trocadilho, simples e funcional, impressiona-me pela completude. Será muito esperar isonomia do Destino?

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A mulher de Branco

No mesmo horário de sempre a mulher de branco subiu no ônibus. A meses eu a observava. A tez de sua pele era de uma alvura que apontava para o albinismo, só desmentido pelos seus olhos castanhos e pelas ralas sobrancelhas escuras. A tez de sua pele só era comparável em alvura a suas roupas: blusa branca, calça branca, tênis branco e meias brancas. Em dias frios um pullover igualmente branco a protegia do tempo. Brancas também eras hastes de seus óculos, e a liga de seus cabelos.

De segunda a sexta, pontualmente as 13:50 ela subia no ônibus, sempre no mesmo ponto. Exalando uma pureza etérea, cumprimentava o motorista com a vivacidade de quem reencontra um velho amigo perdido, deixando o dia do homem melhor. De sorriso franco e aberto, exibindo os dentes impecavelmente brancos, pagava à trocadora, que a respondia com simpatia incomum a esta mesmo quando a moça de branco não possuia todo o dinheiro necessário.

Creio que a todos era óbvia a colocação dessa moça em algum cargo relacionado a saúde. Enfermeira, recepcionista de um hospital? Posto de saúde? Dentista, cirurgiã? Independentemente, não conseguíamos ficar indiferentes a sua presença, e tal como uma lufada de ar fresco na rotina dos presentes naquele ônibus, diariamente sua entrada refrescava-nos e alguns até deixavam escapar um sorriso discreto, não contido.

Estando o ônibus meio vazio no horário, o assento ao meu lado sempre esteva vago, tal como vários outros. Ela sempre buscava um local onde pudesse ficar só, talvez por pura etiqueta. Mas pelos breves segundos  que levava para que  atravessasse a catraca e se dirigisse a um lugar, meu coração palpitava. Imagino quantos outros também não prendiam a respiração, ansiando por ter a moça de branco perto de si.

De uma beleza comum, com um corpo sempre coberto demais para fornecer qualquer informação para uma imaginação mais lasciva, não creio ser justo atribuir todo esse encanto apenas à brancura de suas vestimentas… Havia algo a mais, tinha que haver. Será que por trás daqueles óculos se escondia um olhar sedutor de femme fatale? Será que por baixo daquelas camadas de alvo tecido se camuflava uma roupa de couro? Seria todo aquele branco o seu ponto de equilíbrio? Ou sua armadilha?

Até o dia que notei que a moça de branco vestia uma camisa verde claro. Sem dúvida não deveria ter me espantado, pois o novo traje casava perfeitamente com o estereótipo hospitalar que havia pintado anteriormente. Mas uma dúvida passou a me consumir: Estaria ela vestida de branco por todos esses meses, ou minha mente enganava-me?  Seria esta moça ao menos notada pelos meus companheiros de viagem? A tanto tempo enojado como estava, teria eu personificado minhas últimas lascas de esperança e pureza nessa mulher que fortuitamente cruzara meu caminho?

Dava-me o benefício da dúvida. Nunca puxei assunto, nunca tentei colocar um nome naquele rosto. Resumia-me a sentar calado e aproveitar a brisa que a acompanhava, contendo um sorriso por entre meus não tão brancos dentes.

No mesmo horário de sempre a mulher de branco subiu no ônibus. A meses eu a observava. A tez de sua pele era de uma alvura que apontava para o albinismo, só desmentido pelos seus olhos castanhos e pelas ralas sobrancelhas escuras. A tez de sua pele só era comparável em alvura a suas roupas: brancas, ainda que verdes.

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Era

O ronco enchia a sala, ressoando pelas paredes que tentavam contê-lo. Amplificavam os soluços abafados pelo travesseiro no quarto. As lágrimas esquentavam a face outra, encharcavam lençóis. O sono ébrio do marido fazia-lhe suja. Enlameava sua alma e oprimia seu peito. Soluçava cada vez com mais dificuldade enquanto tentava manter-se una. Nada. Dentro de si, ao menos.

Mais cedo, as lágrimas lavaram o seu amor próprio. Ouviu tudo sem nada dizer, cada gota dissolvendo aquela cena, frias, resignadas. Caíam quase que por obrigação. Chorar não era vergonha, chorar não era privilégio. Era nada, era o que tinha que ser.

Ela sabia onde se metera. Ouvira sua mãe, suas amigas, seus confidentes. Mas a razão fugia-lhe sempre quando se tratava dele. Ele era o que era, ela seria o que tivesse que ser. Mudaria por ele, que não mudaria. Não por amor. Não por ela.

Abraçava agora seus joelhos mordendo debilmente os dedos, fitando a aliança que tanto significava… Tampava sus ouvidos com os joelhos, em vão.  Com os travesseiros, com seu conformismo. Mas nem sua subserviência tirava a dor que lhe perpassava a cada ressonar.

Ele dormia o sofrimento dela. Ele roncava suas frustrações, e em vigília ela sentia sua indiferença. Sem dó, sem respeito, sem importância. Queria só não sentir a tristeza que atravessava o corpo e brotava aos olhos. Quente como o corpo dele. Quente como seus beijos e seus abraços.

Queria-o junto a si. Colado, estremecendo junto, estremecendo em compasso. Não bastava escutar sua presença, precisava senti-la sob os cabelos da nuca. A respiração brigando para sair do seu peito, fazendo-se ouvir pela casa… Não bastava, não era real o bastante. Tinha que ter toque, era isso que faltava. O resfolego abafava o choro, era isso o problema. Ela que tinha que se fazer ouvir, depois de tantos anos. Ela que já tinha mudado tanto, esquecia-se para que o fazia.

Dormindo pesado, alheio a todo o embate que se passava, ele estava em paz. E para que inquietar o coitado? Que fazia de tudo, para amá-la do jeito dele, ela que tinha mudado tanto nesse tempo todo. Não valia a passada. A gota de suor na testa dele, a respiração ruidosa, o cansaço estampado no descanso… Era ela afinal. Para que fazer tudo aquilo? Era justo com ele? Justo com eles? Trocou de joelho e seguiu sua vigília, decidida a se embalar na levada daquela respiração truculenta. Até onde fosse. Até onde tivesse que ir.

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